O Escritor e o Medidor de Palavras

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Por: Nat King



“Livro bom, para mim, só de quinhentas páginas para cima!”

“Duzentas páginas nem é livro de verdade!”

“George R. R. Martin é rei!”

Quantas dessas expressões você já ouviu ou leu? Ou, ainda, quais delas você já usou?

Não é errado termos como preferência uma história que rende facilmente centenas de páginas, ou sermos atraídos por livros de lombadas largas que poderiam facilmente substituir tijolos em uma construção… O problema mora na ideia de que apenas esse tipo de livro é digno de atenção, em uma substituição de “julgar o livro pela capa” com o “julgar o livro pelas páginas”.

Com o passar do tempo, essa busca por milhares de palavras, estendeu-se às histórias digitais, o desejo de que nossas fanfics somassem tantas palavras quanto nossos trambolhos literários preferidos cresceu e, com ele, muitos de nós nos tornamos profundamente críticos quanto o que chamamos de rendimento. Afinal de contas, quantos de nós já finalizou um capítulo com tudo o que queríamos passar, tendo como soma final de palavras, desapontadoras duas mil? Às vezes nem isso! E quando sequer chega perto de mil? A morte! Vergonha para toda uma classe de escritores! Machado de Assis, se já não estivesse morto, cairia duro no chão, tamanha desgraça! Camões mudaria inclusive o curso, se esbarrasse com você na rua! José Saramago, então?! Clarice Lispector com toda certeza morreria, ela e seus dois pseudônimos.

Mas gente, calma, desde quando nos tornamos tão obcecados com isso?

Embora ainda hoje haja uma briga sobre o que é ser escritor de verdade (e termos nossas fanfics atacadas como se não fossem válidas no clubinho literário), nós mesmos temos nos cobrado criar histórias cada vez maiores e mais complexas, como se elas pudessem compensar a falta de credibilidade que muitas vezes nosso nome no Nyah provoque. Estipulamos tipo de enredo, mínimo de palavras, migramos de plataforma com a esperança de sermos levados mais a sério e, quando percebemos, o que começou como um prazer, tornou-se uma obrigação, uma briga de ego que culmina em um estresse desnecessário e textão nos grupos literários, questionando com profunda indignação: POR QUE FANFIC TAL TEM MAIS COMENTÁRIO DO QUE A MINHA HISTÓRIA SUPER INCRÍVEL E MARAVILHOSA??

Hey, calma lá, vamos conversar, fera, senta aqui e respira! Calma, eu não estou te julgando! Calma, eu não acho que você está tendo um chilique desnecessário! MEU DEUS DO CÉU, ABAIXA ESSA PEDRA!!

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Já é seguro me manifestar?

Prezada pessoa que escreve, eu não estou aqui para condenar sua frustração ou medir quando pode sentir isso, pelo contrário! Eu também acho frustrante ver história minha sem nenhum comentário e poucas visualizações… Também torço com todo meu coraçãozinho para os leitores fantasmas se manifestarem! E, principalmente, eu também comparo meus capítulos de mil e oitocentas palavras (ou menos) com aquela mega fanfic que cada capítulo estoura o limite de vinte mil palavras estipulado pelo Nyah. É onde mora o perigo.

Para muitos escritores, fazer uma ideia simples render capítulos enormes, é de uma naturalidade imensa. A escrita flui, os dedos se agitam no teclado e, em uma única sentada, está pronta uma cena cheia de detalhes, que transmite até mesmo cores e sabores… E a descrição nada mais foi que uma pessoa saindo da cama de manhã. Esse escritor é maravilhoso? Claro que é! Porém, não pela sua facilidade em fazer de cada capítulo um Game of Thrones tupiniquim, mas o de transmitir o que deseja naqueles parágrafos. E isso também é possível através de mil palavras, oitocentas, cem! As drabbles estão aí para provar o meu ponto!

O que muito acontece, nessa nossa busca de consolar a frustração em não atingirmos as metas absurdas estipuladas por nós mesmos, é a perigosa “encheção de linguiça”, o acréscimo de cenas desnecessárias que parecem segurar a história ou empurrá-la com uma enorme barriga, acompanhado ou não do uso de um palavreado rebuscado que estiquem suas linhas e aumente a contagem de palavras. Se antes achávamos estar pecando pela falta de texto, acabamos pecando pelo excesso de detalhes e aquela pessoa que tão naturalmente saía da cama de manhã com sete mil palavras, se arrasta sem nenhuma vontade de viver naquele amontoado de palavras que você forçou. Se nem ela está feliz, imagine seus leitores.

Imagine você.

Novamente, não é errado ter preferência por histórias mais compridas, tem até quem só procure fanfics com no mínimo quatro mil palavras por capítulo, sempre vejo fazerem esse tipo de pedido! E também, há quem prefira ler coisas mais curtas, como drabbles! Acho que vai da nossa preferência pessoal e parte dessa inconformidade em “escrever pouco” vem dessa nossa crença de que livro bom é livro comprido, mais de quatrocentas páginas, livro grosso que dê para enxergar a lombada de longe, como Harry Potter e as Relíquias da Morte. Mas quem só vê valor na quantidade de palavras de Relíquias da Morte, se esquece que A Pedra Filosofal nem foi tão comprido assim... Certas obras, como A Hora da Estrela, não precisaram de mais que noventa páginas para marcar gerações, ou ainda Edgar Allan Poe, com tantas obras em seu nome, teve ele gravado na história pelo memorável “Nevermore”, o “Nunca Mais”. Então não se preocupe com a quantidade de palavras que escrever, importe-se que, no fim, sua criação esteja do seu agrado. Tenho certeza de que você é capaz de transmitir tudo o que deseja, seja em vinte mil palavras, seja em cem.

Continue escrevendo. Continue criando. Celebre cada nova criação; nenhum outro seria capaz de fazer o que você está fazendo. Sua escrita é boa o bastante e nenhum contador de palavras pode medir isso por você.

8 comentários:

  1. Maravilha...entendi tudinho. Eu prefiro textos curtos, muito curtos. Gostei da citação de Á Hora da Estrela e de Poe . Lembro também de O Estrangeiro...Camus. Tudo condensado em poucas palavras.
    Bjs!

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  2. Muito obrigada mesmo pela sua dica ( se me permite dizer ), as vezes fico revisando e vendo as histórias que escrevo, em que alguns capítulos estão curtos demais, então leio e releio é as vezes o números de palavras aumenta em outras historias, porque meu conhecimento aumentou também, o jeito que eu escrevia é as coisas que eu sabia quando comecei a escrever, não são as mesmas de agora já que peguei "experiencia" por assim dizer. Quando olho minhas " antigas" fanfics, vejo o quanto estou crescendo e aprendendo a cada dia, que escrever um capitulo com 500 palavras não é um problema, desde que você passe tudo que deseja para os mais importantes. Os leitores.

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  3. Uao que post maravilhoso, eu estava precisando ler isso, adorei a publicação, arrasou!

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  4. Nat King!! Lembra de mim? Sou a autora daquela one-shot maluca, Arrão ou Ferroz :3
    É engraçado como, ao mesmo tempo que existem escritores tentando valorizar seu trabalho acrescentando palavras, há escritores que aconselham a cortá-las, ao ponto de alguns como Carlos Drummond de Andrade adotarem a frase "Escrever é cortar palavras" como uma máxima. Também sigo uma youtuber que é uma autora publicada, e ela diz que se a informação não está acrescentando nada, se não está desenvolvendo seu personagem nem o enredo, melhor cortar. O exemplo dela foi descrever quando o personagem está escovando os dentes no banheiro. Realmente, ninguém quer saber sobre a higiene matinal de seu personagem a não ser que, sei lá, a pasta de dentes esteja envenenada. Às vezes escrever demais acaba deixando a história monótona, deixando não só o leitor desanimado para ler, como também o autor.
    Eu não sei se é um problema que muitos escritores têm, mas existe partes da minha história que eu não vejo a hora de passar para poder chegar logo na parte legal, que vou gostar de escrever. Venho bolando uns macetes para evitar o cansaço. Por exemplo, eu li uma história em que um personagem vai passar as férias num lugar afastado, mas a partida e chegada não eram relevantes, então a autora só passou brevemente por cima disso antes de chegar na cena que realmente interessava na história, em que os personagens estavam sentados num sofá, entediados, e um garoto encharcado pela chuva batia na porta deles. No lugar do autor eu já iniciaria a história com os personagens no sofá e depois explicaria brevemente como eles tinham ido parar ali antes do garoto bater na porta.
    Infelizmente, nem tudo eu consigo resolver dessa forma e às vezes acabo olhando para a tela vazia do Word, pensando em como vai ser chato ter que escrever tudo aquilo antes das grandes revelações. Em como eu deveria estar escrevendo muita coisa ali e não sei o quê. É por isso que no meu perfil do Niah só tem one-shots e histórias curtas. Não que eu não goste delas, eu as amo, mas eu gostaria de ser capaz de escrever outro tipo de história pra evoluir como escritora.
    Talvez eu tenha desviado de assunto, mas eu ia adorar ler alguma coisa que me ajudasse a enfrentar esse tipo de situação aqui no blog da liga. Não é um bloqueio criativo, é só... Uma empacada em alguma parte da história, geralmente quando já se descreveu a situação inicial dos personagens e é preciso desenvolvê-la.

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    Respostas
    1. Vou adicionar a tua sugestão ao nosso banco!
      Obrigada pelo comentário!

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O blog da Liga é um espaço para ajudar os escritores iniciantes a colocarem suas ideias no papel da melhor maneira possível.



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